Como vencer a Inteligência Artificial na advocacia: o novo perfil do advogado do século XXI
Introdução
O exercício da advocacia sempre foi marcado pela busca incessante por conhecimento técnico e domínio profundo do direito. Contudo, no século XXI, o cenário jurídico passa por transformações que exigem a adaptação do advogado às novas demandas da sociedade, diante das ferramentas tecnológicas disponíveis.
O advogado do futuro precisa estar preparado para lidar com o ser humano, pois esse será o grande diferencial frente às “máquinas”, cuja capacidade de processamento e “raciocínio” só tende a aumentar. Isso significa ir além da teoria psicológica e da interpretação emocional clássica – que, aliás, a inteligência artificial (IA) certamente também dominará cada vez mais.
A evolução da tecnologia, especialmente a inteligência artificial (IA), tem impactado profundamente a prática jurídica. Ferramentas de IA vêm sendo cada vez mais utilizadas para otimizar processos, como a revisão de contratos, a análise de jurisprudência e a automação de tarefas repetitivas.
Se, por um lado, o uso adequado da IA pode liberar tempo e energia para que os advogados se concentrem em questões mais estratégicas e no atendimento personalizado ao cliente, por outro, essas ferramentas eliminarão, de maneira cada vez mais agressiva, profissionais que atuam com trabalhos repetitivos, de baixa complexidade ou mera intermediação – sobretudo se não houver um verdadeiro investimento no fator humano, o único diferencial remanescente.
Embora seja inegável a contribuição da IA na pesquisa de dados jurídicos, permitindo que o advogado tenha acesso rápido e preciso a informações relevantes para a elaboração de estratégias, a tecnologia ainda não pode substituir o fator humano na resolução de questões que exigem sensibilidade, ética e julgamento moral.
Em outras palavras, enquanto a IA pode aumentar a eficiência e a produtividade do advogado, as chamadas soft skills continuam sendo o diferencial de um bom profissional da advocacia, capaz de oferecer um serviço diferenciado – não apenas em relação a outros advogados, mas, em um futuro cada vez mais próximo, também às “máquinas”.
O advogado do futuro [presente] precisará se valer desse diferencial competitivo que, atualmente, é desejável na concorrência interprofissional, mas que, no futuro [presente], será uma questão de sobrevivência diante das possibilidades que as “máquinas” oferecerão ao usuário final (ou seja, ao seu cliente), a baixíssimo custo e na velocidade de um estalar de dedos (na verdade, será ainda mais rápido).
As soft skills são características comportamentais e emocionais que envolvem, entre outros aspectos, a capacidade de comunicação, inteligência emocional, trabalho em equipe, multidisciplinaridade, autocrítica, flexibilidade e habilidades de liderança.
No cenário jurídico, tais habilidades já são velhas conhecidas, pois se mostram cada vez mais fundamentais, à medida que o papel do advogado deixa de ser exclusivamente técnico e se expande para o campo das relações humanas e das interações sociais.
O advogado de sucesso do final do século XX já não se limitava a ser um especialista na sua área. A necessidade de construir uma relação de confiança com os clientes, entender suas necessidades e se comunicar de forma clara e eficiente já existe há décadas e sempre foi um diferencial competitivo.
No século XXI, as soft skills são essenciais para estabelecer conexões genuínas, compreender contextos emocionais e atuar de maneira mais eficaz em negociações e resolução de conflitos, algo que a “máquina”, pelo menos no médio prazo, não parece conseguir alcançar com eficiência.
E, nesse contexto, a palavra que mais se destaca nesse “diferencial” é: empatia.
A empatia não é apenas uma soft skill. Ela pode ser vista como um pilar das soft skills, assim como é o princípio da dignidade da pessoa humana na ordem constitucional.
O perfil do advogado do século XXI.
Se você não é uma IA (sim, uma leitura crítica deste artigo pode estar sendo feita, neste exato momento, por um não-humano), sua capacidade de processamento, ainda que lenta, [ainda] é muito mais eficiente para compreender o que o cliente precisa do que a da concorrência não humana.
A capacidade inata do ser humano de se colocar no lugar do outro, antecipando reações e sentimentos, é algo particularmente valioso em uma profissão que lida com questões muitas vezes complexas e carregadas de emoções.
Essa habilidade é fundamental em todas as interações da profissão – no relacionamento com magistrados, colegas de profissão, em ambientes de mediação ou negociação, entre muitas outras interações. Perante o cliente, a empatia é necessária para um bom desempenho em diversas situações, desde a contratação até o final da prestação dos serviços, com especial destaque na tomada de decisões estratégicas e cruciais para o caso patrocinado.
Errar nessa “leitura” do cliente, quando questões emocionais e psicológicas desempenham um papel relevante no resultado final, pode significar desde a perda de um contrato até uma boa causa malconduzida e com resultado negativo.
Para desenvolver esse superpoder da empatia, algumas práticas são particularmente recomendadas ao advogado. A lista não exaustiva abaixo tem o objetivo de fornecer um direcionamento sobre as habilidades primárias que devem ser aprimoradas:
- a) Escuta ativa inicial: demonstrar interesse genuíno pelo cliente no primeiro contato, concentrando-se totalmente no que ele disser, independentemente da relevância jurídica. Saber fazer perguntas para entender suas expectativas e perspectivas é essencial. Se tiver dificuldades, experimente, nas reuniões, repetir, com suas próprias palavras, o que a pessoa disse para confirmar que compreendeu corretamente.
- b) Gentileza gratuita e overdelivery: pequenos gestos, como agradecer pela confiança, oferecer ajuda espontaneamente, indicar profissionais qualificados para outras demandas ou entregar algo além do contratado, fazem toda a diferença.
- c) Atendimento humanizado: Um atendimento verdadeiramente humanizado busca compreender as necessidades individuais do cliente, oferecendo suporte adequado e promovendo uma experiência acolhedora, que valorize sua dignidade e bem-estar. Adaptar-se à linguagem do cliente, praticando uma comunicação ativa, clara e acessível, garantindo que as informações sejam transmitidas de forma compreensível e respeitosa. É essencial considerar não apenas os aspectos técnicos da demanda, mas também o contexto emocional e social envolvido, demonstrando paciência e sensibilidade.
- d) O “advogado do diabo”: a empatia também é uma ferramenta estratégica na argumentação jurídica. Colocar-se no lugar da parte contrária permite antecipar argumentos e preparar respostas mais eficazes.
- e) Habilidade em negociações: compreender as reais necessidades de cada parte facilita a construção de acordos vantajosos, desarmando tensões e evitando desgastes desnecessários.
- f) Reputação e fidelização de clientes: um advogado que busca se consolidar no mercado deve cultivar relacionamentos de longo prazo. Manter contato esporádico com clientes mesmo após o encerramento do processo reforça a confiança e a credibilidade profissional.
Além disso, a empatia fortalece a capacidade do advogado de liderar equipes e gerenciar conflitos internos, criando um ambiente de trabalho mais colaborativo e eficiente.
Conclusão
A nova revolução tecnológica não é uma ameaça, mas um chamado à reinvenção. A inteligência artificial pode processar informações em velocidades inimagináveis, mas não consegue compreender as dores, anseios e expectativas humanas como só um ser humano poderia.
O que diferencia o advogado do século XXI não é apenas o conhecimento técnico ou a capacidade de utilizar ferramentas digitais, mas a habilidade de conectar-se genuinamente com o outro.
Empatia, inteligência emocional e pensamento estratégico são mais do que diferenciais; são a essência de uma advocacia que permanecerá relevante e indispensável. Quem compreender essa dinâmica não apenas sobreviverá à era da ascensão das máquinas, mas prosperará, tornando-se um profissional insubstituível e invencível no tempo.
Em um mundo cada vez mais dominado por algoritmos, ser humano é o seu maior trunfo.