Clube do livro

A natureza da mordida – Carla Madeira

 

“O que você não tem mais que te entristece tanto?” – É com essa pergunta que o livro inicia. A provocação inesperada, vinda de uma estranha, desencadeia uma sucessão de encontros marcados pela intimidade crescente que, aos poucos, revelam as histórias das duas protagonistas.

A escritora deste livro ficou famosa com a publicação do seu livro “Tudo é rio”, que também é excelente e já fica de indicação, mas hoje vim falar sobre o livro “A natureza da mordida”. Esse é, sobretudo, um livro marcado pelo amor à literatura. Olívia e Biá são as duas protagonistas da história.

Devastada por uma perda recente, Olívia se deixa envolver pela fala desenfreada de Biá, por seu humor dilacerante, sua tragédia cotidiana e os mistérios de uma dor antiga. Ambas se encontram pela primeira vez em um sebo improvisado em uma banca de jornal. Engatam, a partir daí, uma amizade forte, reforçada em reencontros rotineiros aos domingos, e acabam estabelecendo uma relação de cumplicidade, afeto e muitas trocas.

Curiosamente, livros de sebo não contam apenas as histórias que inundam suas páginas: contam também aquelas das pessoas por cujas mãos eles passaram. Uma dedicatória, uma assinatura, anotações e sublinhamentos. Que emoções geraram estes exemplares? Quais histórias da vida tocaram?

Duas mulheres unidas pelo amor à palavra: Olívia é uma jornalista e Biá uma psicanalista que um dia se encontram. Nos primeiros capítulos o leitor se verá perdido por uma história cheia de lacunas, mas ousem desistir, continuem. Será preciso mastigar cada tesouro que emergirá dos encontros e das anotações feitas por Biá, mesmo que tomado pela angústia de não poder compreendê-los ainda – afinal, assim não é a vida?

Posteriormente, tudo começa a ser revelado. Ao conhecer a vida de Olívia, o leitor vai sendo preparado para compreender Biá. A amizade que vai sendo construída me envolveu bastante, assim como os segredos que vão sendo desvendados aos poucos.

Como nos outros romances da autora, as personagens parecem saltar do papel para colar o leitor diante de questões universais, entre elas a incondicionalidade do amor, a força do desejo, a culpa e o esquecimento, a memória e sua dinâmica inescrutável com o perdão.

Sigo admirando a escrita poética de Carla Madeira, que provoca uma vontade de sair grifando vários trechos do livro. Foi incrível ver como a história foi se desdobrando, como as narrativas foram se entrelaçando e como todos temos o melhor e o pior dentro de nós vivendo, por vezes, em desequilíbrio.

 

Colunista

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Hannah Riff
Graduada em direito. Advogada licenciada OAB/PE. Assessora de membro do Ministério Público de Pernambuco. Graduanda em Psicologia pela Faculdade Pernambucana de Saúde. Estagiária do IMIP. Leitora por paixão. Parte dessa foz, o rio da leitura, corre em mim desde cedo. Leio porque entendi que as palavras também nascem da coragem de sentir. Esse lugar assustador e mágico de estar vulnerável e por isso, deliciosamente humano. Ler, para mim, é estender uma ponte até o peito. Fazer do papel um espelho. O percurso é entregar-se a cada página, a um sentir, a algo sentido. Espero nessa jornada poder dividir um pedaço desse amor e dessa entrega com vocês também.

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