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Hamnet – por Maggie O’Farrell

Na Inglaterra do século XVI, assolada pela peste negra, Hamlet e Hamnet eram, na verdade, o mesmo nome, completamente intercambiáveis.

Hamnet era o nome do filho de um dos maiores escritores de todos os tempos, William Shakespeare – aquele que, de acordo com Harold Bloom, inventou o humano. Hamlet é o título de uma das peças de teatro mais icônicas de todas, daquelas cujo alcance extrapola o âmbito literário: “ser ou não ser: eis a questão”?

No livro vencedor do Women’s Prize for Fiction de 2020, O’Farrell conta a história desses dois (menino e obra), mas vai muito além ao recriar a história de todo a família em Stratford, a partir da monumental figura de Agnes[2], esposa de Shakespeare. No relato imaginado por O’Farrell, Agnes é responsável por subverter o padrão idealizado para as mulheres na época – e manter a unidade da família através da distância e, sobretudo, do luto.

O livro é dividido em dois momentos. No primeiro, a narrativa vai e vem no tempo, em capítulos mais ou menos curtos que fluem e refluem até convergir no momento da morte de Hamnet (não é spoiler, isso o leitor fica sabendo antes mesmo do primeiro capítulo); no segundo, que se projeta nos anos seguintes à morte, os capítulos são abandonados, obrigando o leitor a acompanhar, sem hiatos, o luto que resiste ao tempo. Esses dois momentos, contudo, convergem, cada qual a seu modo, em cenas tão avassaladoras quanto bonitas, nas quais a prosa de O’Farrell atinge o ponto máximo. Sobretudo para aqueles que gostam de ficções construídas a partir de dados históricos, o livro entrega um belo relato sobre a condição universal do luto e do papel redentor da arte.

 

Referências:

[1] O livro foi traduzido no Brasil pela Regina Lyra e publicado pela Editora Intrínseca em setembro de 2021. Minha leitura, no entanto, acompanhou a edição original e, por não ter tido contato com a tradução, mantive os dados do livro de que disponho.

[2] Há uma divergência também quanto à grafia do nome da esposa de Shakespeare. Muito indicam que o correto seria Anne, mas segui a autora – que, por sua vez, fez sua escolha depois de consultar o testamento de Richard Hathaway, no qual ele se refere à filha como Agnes.

Colunista

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Renato Dowsley

Mestre em Direito pela Unicap. Membro da Associação Brasileira de Direito Processual (ABDPro) e da Rede Brasileira Direito e Literatura. Advogado.

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