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Profundezas que se mostram na superfície: exemplos práticos

Esses dias vi um meme interessante na internet, que me fez lembrar das profundezas da mediação. Ele dizia assim:

 

eu: mãe, você tem acetona?

 

resposta que eu espero: tenho/não tenho.

 

resposta que eu recebo: eu tinha, né, mas pegam as minhas coisas sem eu ver, não colocam no lugar e depois ninguém sabe de nada, aí eu quero fazer minha unha e não posso porque não tenho direito a nada nessa casa.

 

Uma coisa que aprendemos com a Psicanálise é que nada do que falamos é aleatório. Falar é trazer a presença de um tema que, ainda que latente, evidencia não só a sua importância para o sujeito, como também a sua história, regente do presente, externalizada ali, na própria fala. Se estivermos com uma escuta atenta ao que se diz – e digo “estar” porque a escuta é uma prática, que se aperfeiçoa ou se perde -, teremos a chance de perceber e trabalhar com essas necessidades humanas mais profundas.

Nesse sentido, Lacan investiga através da ciência da Linguística o que Freud chamou de associação livre de ideias, e percebe-defende que o nosso psiquismo está estruturado como uma linguagem, com seus significantes encadeados. Em nosso meme inicial, por exemplo, como um simples “ter ou não ter um objeto” se liga à sensação de “quero fazer algo mas não posso” e esta, por sua vez, a de que “não tenho direito a nada nessa casa”? Ainda que ditas de uma forma irônica ou chistosa, mas muitas vezes violenta, o fato é que essas falas evidenciam um acumulado de vivências dolorosas anteriores que fazem emergir um conflito potencialmente intenso em uma situação bastante banal e cotidiana, em que se esperava um simples “sim” ou “não” como resposta (imagine o que um acumulado de vivências dolorosas e pouco elaboradas não pode fazer em situações conflituosas mais complexas).

Os preceitos da Comunicação Não Violenta certamente nos convidariam à reflexão de que generalizações são comumente violentas, porque, afinal, “algum direito nessa casa você deve ter”. De fato, essa é uma reflexão que, muitas vezes, nos faz mudar de postura instantaneamente, e com algum esforço podemos passar a praticar – diariamente, a todo momento – uma forma mais clara e sincera de expressarmos nossas observações sobre a situação que se apresenta, como nos sentimos em relação a ela, e quais seriam as nossas necessidades e pedidos para o momento[1]. Mas há ainda espaço para uma importante pergunta: “por que você acha que não tem direito a nada nessa casa?”. Assim um espaço para elaborações mais profundas é aberto.

Esse meme me lembrou também um outro exemplo cotidiano, narrado no livro “Transformação de Conflitos” do mediador internacional John Paul Lederach, sobre o que se liga às intensas discussões em família sobre quem vai lavar a pilha de louça suja. Transcrevo-o quase na íntegra a seguir para uma melhor percepção do caso e suas nuances:

 

Em casa, minha família muitas vezes tem acaloradas discussões sobre tarefas domésticas, por exemplo, sobre lavar a louça. Conseguimos armar uma tremenda briga, aparentemente do nada, por causa de coisas muito mundanas. O conflito se centra em algo bem concreto e específico: a pilha de louça suja na pia. No entanto, a energia que aplicamos no conflito sugere que algo mais profundo está em jogo. De fato, trata-se de muito mais do que simplesmente decidir quem vai lavar a louça. Na verdade, estamos negociando a natureza e a qualidade dos nossos relacionamentos, o que esperamos um do outro, a interpretação de nossa identidade como indivíduos e, enquanto família, nosso senso de valor próprio e cuidado dos outros, e a natureza do poder e tomada de decisões em nossos relacionamentos. Tudo isso bem ali, no monte de louça suja.

Essas preocupações estão implícitas nas perguntas que fazemos: “Quem vai lavar a louça hoje à noite?”, “Quem lavou ontem?”, “Quem vai lavar amanhã?”. Ou seja, a questão não é simplesmente a louça suja. A louça detona a briga porque revela algo sobre o nosso relacionamento – se somos capazes de enxergar além e por trás da louça e ver os padrões e problemas subjacentes ou não resolvidos.

Seria muito simples responder à pergunta: “Quem vai lavar a louça hoje?”. Bastaria alguém responder e o problema estaria resolvido. Muitas vezes, na falta de tempo e de interesse em ir mais fundo, é exatamente o que acontece: encontramos uma solução rápida para o caso. No entanto, esta solução rápida não sonda o significado profundo do que está acontecendo com nossos relacionamentos e em nossa família. E se esse nível mais profundo não for tratado, acumula-se uma energia que surge com força total no próximo monte de louça suja, roupa pra passar, ou os sapatos que teimam em ficar estacionados no meio da sala.

[…] Este é um exemplo engraçado? Sim, se nosso foco recair na louça em si. E não, se a louça for vista como uma janela para enxergar a vida, o crescimento, os relacionamentos e o entendimento (grifos nossos)[2].

 

Esses são exemplos simples mas bastante elucidativos sobre as diversas camadas dos conflitos que se apresentam à mediação. Em resumo, não é que as nossas profundezas, pessoais e relacionais, sejam inacessíveis, ou que se tenha que realizar um longo e árduo processo de escavação para descobri-las. Não, elas se mostram mesmo na superfície, na fala do sujeito. Esse inclusive é um dos motivos de Lacan ter proposto uma outra representação para o aparelho psíquico, em contraste ao iceberg freudiano: a Fita de Möebius.

Sinteticamente, a Fita de Möebius é uma figura topológica e, portanto, espacial, que aparenta ter dois lados, mas, na verdade, se você percorre a fita com uma caneta ou outro objeto, verá que ela possui apenas um lado, apenas uma borda. Com isso, Lacan tenta representar a ideia de que consciente e inconsciente se apresentam no mesmo nível, e por isso nos encontramos com os desejos mais profundos do sujeito assim, na superfície de uma fala.

E é por ser a mediação justamente um espaço aberto à fala, à elaboração do conflito e à construção de acordos possíveis pelas próprias partes envolvidas, que mediadores, advogada(o)s e demais profissionais colaborativos devem estar atentos a essas falas, às palavras nelas utilizadas, e claro, aos seus efeitos de corpo, para assim não deixar passar algo de mais profundo e muito importante para as partes na dinâmica conflitual. Para tanto, devem colocar em prática uma escuta ativa, bem como exercitar as lentes, ora mais amplas, ora mais focadas, da transformação de conflitos, comentadas em nosso artigo anterior: “O olhar da transformação de conflitos”[3].

 

Referências:

[1] ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.

[2] LEDERACH, John Paul. Transformação de Conflitos. Tradução de Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athena, 2012, p. 23-25.

[3] Artigo disponível em https://juridicamente.info/o-olhar-da-transformacao-de-conflitos/.

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Amanda Ventura

Amanda Ventura é advogada colaborativa, mediadora de conflitos humanista e psicanalista em formação contínua. Possui larga experiência em Direito Societário e Contratual, e hoje atua na mediação em conflitos de Família (incluindo Divórcio Colaborativo) e Empresas Familiares ou com "affectio societatis" a ser cultivado-restaurado. Além de tudo, é poeta, yogini-professora e contemplativa-entusiasta dos afetos e desejos que tecem as relações humanas. Master of Laws - LLM em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas - FGV. Pós-graduada em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz com ênfase em Equilíbrio Emocional pelo Instituto Paz e Mente em parceria com a Faculdade Vicentina - FAVI, a Cátedra de Paz da UNESCO da Universidade de Innsbruck - Áustria e o Santa Barbara Institute for Consciousness Studies, Califórnia - EUA. Capacitação em Mediação Humanista pelo Centro de Mediação Humanista - MEDIAH; em Mediação Extrajudicial pela Faculdade de Olinda - FOCCA; e em Comunicação Não Violenta pelo coletivo Justiça Restaurativa Pernambuco. Psicanalista em formação contínua pela ALCEP - Associação Livre Centro de Estudos em Psicanálise. Bacharela em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), parcialmente cursado em Sciences Po Lille - França.

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