Área jurídicaDisruptivo

A tecnologia como instrumento de democratização do exercício da advocacia

Embora defendamos, em regra, a exploração das áreas menos saturadas pelos jovens advogados, a grande maioria dos Colegas recém inseridos no mercado jurídico optam mesmo por iniciar o exercício da profissão na boa e velha advocacia contenciosa.

 

Num cenário em que os escritórios já estabelecidos exercem, com grande eficiência, a sua dominância, o que dizer aos jovens (de idade e/ou de mercado) que ainda querem advogar no sentido tradicional, dos processos, dos prazos e dos despachos, para motivá-los a não desistirem da advocacia contenciosa e autônoma?

 

Em uma palavra, o que esse jovem advogado precisa é de um melhor amigo, e esse melhor amigo, ou melhor, amiga, se chama tecnologia.

 

A grande verdade é que a tecnologia veio para democratizar um pouco mais a advocacia tradicional.

 

E ela atua de forma direta, mediante simplificação da execução dos trabalhos e dos processos internos, e também indireta, em razão da natural intimidade que os jovens possuem com assuntos tecnológicos em geral.

 

Problemas à parte – e não são poucos – a tecnologia permitiu dispensar uma série de elementos antes vitais para o funcionamento de um escritório de advocacia contenciosa.

 

Numa perspectiva comparativa e temporal, destacamos aqui os 5 elementos que, nos anos 2010, não faltariam a qualquer escritório de advocacia, sem os quais a chance de sucesso – ou sobrevivência – era baixíssima, e os comparamos, em necessidade e em custos, com os dias atuais.

 

  1. Estagiários

 

Qualquer escritório de advocacia até o ano de 2010 não sobreviveria sem um time (por vezes um exército) de estagiários.

 

Os estagiários de direito, em certo momento, foram tão bem remunerados em alguns escritórios de advocacia que isso até mesmo descaracterizou o que deveria ser um programa de estágio, passando a ser encarado com um verdadeiro sustento para muitos, pois se auferia uma renda muitas vezes superior a diversos empregos ditos formais.

 

É bem verdade que naqueles tempos a Lei do Estágio não existia, e a “noção” (em termos legais, “razoabilidade”) dos dirigentes jurídicos passava longe.

 

A razão principal da dependência dos estagiários era o acompanhamento dos processos, à época 100% físicos, que demandavam idas e mais idas aos cartórios, para obter informações, cópias, cargas, entrega e retirada de documentos, ofícios, mídias, mandados e mais um sem-número de tarefas fundamentais na marcha processual.

 

De lá para cá, os processos tornaram-se digitais, e o balcão da serventia, virtual.

 

Com algum trabalho inicial para preencher cadastros e senhas, o advogado hoje encontra-se a alguns cliques de todas as informações que precisa, e os Tribunais disponibilizam para ele, de qualquer lugar do planeta, a maioria dos meios para movimentação dos processos, protocolos, envio e recebimento de informações e documentos, uma simples e rápida conversa com um serventuário para resolver problemas, explicar questões urgentes, tentar movimentar o processo ou agilizar um mandado de pagamento, só para citar os exemplos mais comuns.

 

Os estagiários, que antes eram o pulmão de um escritório de advocacia, tornaram-se até menos desejados do que os advogados recém-formados, que, embora custem mais, possuem cadastros e “tokens” individuais de acesso e movimentação processual, um entrave que se apresentou aos estagiários na era do processo eletrônico.

 

  1. Escritório físico e bem localizado

 

Alguns escritórios, tradicionalmente instalados próximos aos fóruns das capitais, até pouco tempo atrás possuíam uma enorme vantagem competitiva.

 

Não apenas pela praticidade do dia a dia, mas principalmente quando se tratava de demandas urgentes, a localização privilegiada do escritório de advocacia fazia com que os advogados literalmente chegassem ao fórum a tempo, ou mais cedo, que seus ex adversos. Isso sem falar no cumprimento dos prazos no dia a dia, todos protocolados fisicamente, normalmente até o rigoroso horário de fechamento das portas.

 

O fórum esvaziou-se, o que, nas rodas de advogados mais antigos, é prato cheio para severas (e muitas delas pertinentes) críticas – que estrategicamente não são o foco deste artigo.

 

O fato incontroverso é que, nos dias de hoje, o advogado, regularmente, consegue trabalhar, protocolar e despachar de qualquer lugar. As audiências e julgamentos virtuais são comuns, fazem parte do dia a dia, assim como as plataformas de videoconferência já são utilizadas em larga escala, e sua tecnologia, fácil e intuitiva, é acessível a todos, dependendo apenas de um computador de configuração simples e uma conexão razoável com a internet.

 

Com o abrandamento dessa necessidade, de ordem competitiva, o jovem e descapitalizado advogado pode exercer, sem grande prejuízo, a sua “advocacia virtual” sem a imprescindibilidade de um espaço físico montado e decorado num ponto comercial valorizado e caro.

 

Para muitos, essa pode ser uma diferença crucial para a sobrevivência inicial, até o ritmo de causas, clientes e honorários se estabelecer. É a diferença entre começar o mês realmente no zero, ou começar já no negativo.

 

  1. Sistemas de acompanhamento e gerenciamento processual

 

É verdade que muitos escritórios grandes não necessariamente dispõem de um sistema de acompanhamento processual, tampouco algum sistema que permita também gerenciar clientes, pagamentos etc.

 

Inobstante isso, o que nem sempre é dito é que esses escritórios podem até não dispor de um sistema – daqueles que se paga uma mensalidade, são alimentados e manutenidos – mas é certo que eles sempre dispõem de processos internos.

 

Esses processos internos, por vezes forjados por anos e mais anos de prática e costumes reiterados entre os profissionais do escritório, são métodos, procedimentos, ou, numa palavra mais simples, “maneiras” de fazer as coisas darem certo.

 

Quando um jovem advogado ingressa em um escritório estabelecido, ele é apresentado aos processos internos antes até do que aos processos judiciais de que vai cuidar. E, em se tratando de escritórios de contencioso sem sistema de acompanhamento processual, é quase certo que os processos internos dependam de muitas pessoas, de forma que eles logo se verão como um pedaço de uma grande, pesada e lenta engrenagem.

 

A boa e hodierna notícia é que o jovem advogado não precisa nem de um nem de outro para começar, justamente porque, com o domínio de algumas ferramentas tecnológicas disponíveis – e, a maioria aliás, gratuitas – ele poderá criar os próprios processos internos de acompanhamento processual, agendamento e delegação de tarefas, gerenciamento e controle de clientes, administração de cobranças e pagamentos, e mais um sem-número de funções na palma da mão e a custo zero (ou bem perto disso).

 

Claro que algum limite se encontrará a partir do qual não se poderá mais dispensar um software especializado, mas é certo que, quando tal limite se apresentar ao horizonte, a realidade financeira decerto será outra.

 

  1. Marketing tradicional e QI (“Quem Indica”)

 

Em 2010 a captação de clientes era quase que exclusiva dos advogados mais conhecidos e já estabelecidos no mercado.

 

Comumente, e paradoxalmente, também não era incomum que o nome do advogado indicado não correspondesse ao nome do advogado que atenderia o cliente, mas esse, de novo – e estrategicamente –, não é o nosso foco neste artigo.

 

A essência da advocacia, claro, não se alterou nem se alterará. E esta essência está baseada numa palavra: confiança.

 

A confiança, por sua vez, vem da autoridade. E somente os advogados mais antigos tiveram tempo de construir essa autoridade para, enfim, receberem frequentes indicações de novos clientes e, por consequência, a eles serem confiadas as melhores causas.

 

Até que, mais uma vez, a tecnologia trouxe novas formas de construir autoridade e, de novo, embaralhou o jogo.

 

E com o domínio dessas novas formas, surgem os profissionais que não precisam de um alto “QI” (“Quem Indica”).

 

Na medida em que é possível construir autoridade em linha direta com o cliente, através da internet e das redes sociais, sem intermediadores ou prévios abalizadores, torna-se viável ser avaliado e submeter, com alguma criatividade, seus conhecimentos e suas habilidades à prova e ao julgamento de quem estiver à busca dos seus serviços.

 

Estabelecer um mínimo de confiança, suficiente para a primeira aproximação, é muitas vezes o que um jovem advogado precisa para mostrar do que é capaz e decolar.

 

E, se o jovem advogado estiver pronto para usar e encarar as redes para ver e ser visto, essa dose básica, mas fundamental, de confiança injetada no outro tem o potencial de abrir-lhe as portas do mercado, não só para conseguir os primeiros clientes, mas também para começar a ter o seu próprio “QI” dali para frente.

 

  1. Staff robusto

 

Office-boy, técnico de informática, recepcionista, copeira, faxineira, muitas secretárias, um financeiro, um auxiliar administrativo, por vezes um contador interno, talvez alguns auxiliares gerais e diversos parceiros. Esse era o escritório médio típico dos anos 2010.

 

Não à toa a folha de pagamento, junto aos aluguéis caros, foi a primeira a ser dilacerada no início da pandemia.

 

Num mercado em que o preço geral está baixo, e o valor que se espera entregar está alto, a execução das tarefas de meio da forma mais eficiente possível não é apenas um desafio, mas um imperativo de sobrevivência.

 

Se, por um lado, num escritório de staff enxuto aqueles que executam as atividades-fim (ou seja, os advogados) acabam muitas vezes sobrecarregados com tarefas administrativas, por outro lado quando o staff é robusto o alívio na execução das tarefas administrativas é acompanhado de uma sobrecarga no lado direito da contabilidade, influenciando negativamente nos resultados.

 

Mais uma vez a tecnologia socorreu a todos, dando especial chance e competitividade aos principiantes. Com a crescente dispensa do elemento humano para a execução de tarefas de menor complexidade (mais uma polêmica, para a qual vale a mesma observação das anteriores), substituídos que são pela tecnologia, o foco das despesas de pessoal fica realmente naqueles que fazem o espetáculo acontecer.

 

Afinal, no fim do dia (do mês e do ano), “a conta tem que fechar”.

 

 

Colunista

Avalie o post!

Incrível
2
Legal
0
Amei
1
Hmm...
0
Hahaha
0
Guilherme Macedo
Advogado com 15 anos de experiência de foro e arbitragens. Formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bacharel em Administração pela Academia da Força Aérea / Universidade da Cidade. Árbitro do Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem - CBMA. Sócio Fundador do Escritório Guilherme Macedo Advogados. Anteriormente foi Sócio Sênior do Escritório H. B. Cavalcanti e Mazzillo Advogados. Foi também aviador da Força Aérea Brasileira. Fala português, inglês, espanhol e italiano.

    Você pode gostar...

    Leave a reply

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    dezenove − 12 =