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Primeiro eu tive que morrer – Lorena Portela

Esse é o livro de estreia de escritora e jornalista cearense Lorena Portela. Lorena é uma contadora de histórias de mão cheia, que nos leva para a narrativa com facilidade e de um jeito encantador. A gente vai lendo e não quer parar: se apega aos sentimentos, aos personagens, aos lugares, cheiros e gostos. Não posso deixar de mencionar que me frustrei um pouco quanto à
construção da narrativa, mas como faço análises críticas de livros por hobby, passei uma borracha nisso e segui a leitura.

A personagem principal é uma publicitária esgotada tanto física quanto mentalmente, consumida pelo estilo de vida adotado e admirado pela atual sociedade, onde o ter prevalece ao ser. Aconselhada pela psicóloga, ela tira um período de férias do trabalho e se instala em uma pousada em Jericoacoara com o intuito de se recuperar. Lá, encontra mulheres fortes. Amigas
antigas, novas amigas, amores antigos, novos amores. A morte narrada no livro não é literal, mas sim sobre as pequenas mortes cotidianas que fazem parte da nossa vida.

É um livro curtinho, que não se aprofunda muito nos personagens (exceto a personagem principal) e mostra como as mulheres carregam uma força maior que o mar, e que podemos ser cais, porto e foral umas das outras. Somos magia pura e existe cura e força quando paramos para ouvir umas às outras.

Como psicóloga, profissional da saúde mental, deixo uma ressalva ao tema do
esgotamento no trabalho (ou popularmente conhecido como burnout), que precisa sim de acompanhamento psicoterápico (como a personagem principal faz) e muitas vezes até mesmo psiquiátrico. Nem sempre é tão resolutivo, fácil de ser identificado e tratado com algumas semanas em frente ao mar. Além do mais, a protagonista tem um papel privilegiado por poder se afastar do trabalho e não sofrer um enorme impacto financeiro (ou estar tranquila com isso), sabemos que essa não é a realidade da maioria dos brasileiros.

Por fim, é um livro de mulheres, não somente das personagens, mas de cada uma de nós que o lê, mesmo que em diferentes momentos. Importante pontuar também que o livro foi todo feito por mulheres: diagramação, revisão, ilustrações, capa, etc. Me emocionei ao pensar em todas as Guidas que eu já tive o privilégio de conhecer e em como tenho tido cada vez mais
consciência da Amália que existe em nossas jornadas.

Recomendo demais esse livro, pela forma como ele impacta, incomoda e desperta muitos questionamentos. Sobre a situação da mulher, sobre a vida baseada em alto rendimento, sobre traumas, crenças, necessidades, amor-próprio e principalmente, sobre se permitir. Uma leitura que nos dá a oportunidade de promover mudanças, sem que tenhamos de enfrentar a morte (metafórica e literal).

“Quanta coragem existe em alguém tão pronta para o amor?”

“Quantas mortes uma mulher já enfrentou para continuar viva? O
quanto de dor uma mulher é capaz de suportar e se manter de pé?”

Colunista

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Hannah Riff
Graduada em direito. Advogada licenciada OAB/PE. Assessora de membro do Ministério Público de Pernambuco. Graduanda em Psicologia pela Faculdade Pernambucana de Saúde. Estagiária do IMIP. Leitora por paixão. Parte dessa foz, o rio da leitura, corre em mim desde cedo. Leio porque entendi que as palavras também nascem da coragem de sentir. Esse lugar assustador e mágico de estar vulnerável e por isso, deliciosamente humano. Ler, para mim, é estender uma ponte até o peito. Fazer do papel um espelho. O percurso é entregar-se a cada página, a um sentir, a algo sentido. Espero nessa jornada poder dividir um pedaço desse amor e dessa entrega com vocês também.

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