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Mediação e ConciliaçãoNas profundezas da mediação

O poder de uma pergunta aberta

 

 

 

Atenta para as sutilezas

que não se dão em palavras.

Compreende o que não se deixa

capturar pelo entendimento.

 

(Rumi)[1]

 

 

Já é dezembro e estamos chegando ao fim de mais um ano. O clima natalino vai se instalando, o novo ano se anunciando, e a expectativa por uns dias de descanso e lazer vai nos tomando. Ainda que nem sempre, geralmente este é um mês de celebração, agradecimento e compartilhamento. Dá pra ser bastante intenso.

Também neste fim de ano comemoramos com alegria o primeiro ano da coluna Nas profundezas da mediação. E, fazendo aquela retrospectiva costumeira, boa para consolidar pedaços da vida inteira, vejo que falamos sobre aspectos importantes da vida humana e das relações e, logo, das mediações.

O iceberg de Freud nos deu a imagem inicial para começarmos nossas reflexões sobre as profundezas da mente humana, e de como em uma mediação é preciso abrir espaço para que o que verdadeiramente importa se mostre e quem sabe se transforme. Nota mental: lembrar do conselho do mestre Stuart G. Webb aos profissionais colaborativos: (i) confie no silêncio; (ii) largue o controle; (iii) confie no time; (iv) sustente o máximo de espaço que conseguir; (v) continue inovando criativamente[2].

A Fita de Möebius trabalhada por Lacan nos facilitou o entendimento de como essas profundezas na verdade aparecem na superfície, na fala do sujeito, que nunca é aleatória[3]. Nesse sentido, refletimos sobre a importância da escuta pelo mediador, da sua atenção ao dito, e também às sutilezas do não dito, como bem nos lembra o poeta Rumi na poesia com a qual este texto se inicia.

Também nos debruçamos sobre o olhar da transformação de conflitos, que com suas diversas lentes nos convida a enxergar os conflitos como parte natural dos relacionamentos e como motor de mudanças. Refletimos, ainda, como esse giro de perspectiva promove transformações na própria forma de ver e fazer valer o Direito[4].

Por fim, tocamos em alguns desafios da mediação em ambientes polarizados, bem como nas fragilidades de um acordo (papel assinado) quando este não é sustentado pelo engajamento genuíno das partes envolvidas – e como tudo isso se complica quanto maior for o número de partes envolvidas[5].

Bom. Fazendo essa retrospectiva, me vem a associação que eu faço da prática da mediação como aliada de uma prática de vida.

Não sei se os que me leem aqui possuem alguma religião. Ainda que não, nesta época do ano acabamos ficando mais envolvidos reflexiva e festivamente com a cultura cristã, concordam? Assim, talvez muitos de nós sejamos tocados nesse período por uma maior consciência espiritual, pelo valor do servir ao outro e pela máxima do amar ao próximo.

Eu particularmente fico muito atenta a ensinamentos sobre a vida, especialmente do budismo, caminho que cheguei através da yoga e me aprofundei através da mediação. Sim, o caminho da mediação de conflitos me aproximou do caminho do budismo, também conhecido como Caminho do Meio. Só por esse nome já dá para perceber alguma semelhança, não?

Uma das coisas que eu acho mais interessante da prática budista é que ela não tem feriado, não tem dia sim, dia não, e nem momento apropriado. E isso é levado muito a sério pelos praticantes: todos os momentos da vida, dos mais leves aos mais conflitivos, são oportunidades preciosas para a prática. Parece combinar com o olhar da transformação de conflitos, sim?

Um livro de ensinamentos em especial me é muito caro, e com ele eu traço vários paralelos com a prática da psicanálise e da mediação. Ele se chama O poder de uma pergunta aberta[6], da professora de dharma norte-americana Elizabeth Mattis Namgyel. Com toda a simplicidade e clareza, Elizabeth levanta algumas reflexões que valem a pena contemplar.

Ela aponta, por exemplo, que “adotamos atitudes fundamentalistas em relação aos outros quando simplesmente nos recusamos a deixar que eles sejam maiores do que a visão subjetiva e objetificada que temos deles” (p. 106). Faz sentido, não? Afinal, ninguém é apenas o adjetivo que colocamos, os atos que cometeram ou as atitudes que tomaram. As pessoas são muito mais do que o nosso foco momentâneo e objetificado permite perceber. Mas como é difícil em certos momentos conseguir soltar (uma ideia fixa) e ver!

Nesse sentido, permanecer com a prática de uma mente aberta, que não se prende em uma conclusão, e sim acolhe toda a complexidade e ambiguidade das pessoas e da vida, “traz à tona a profundidade, inteligência e compaixão da nossa humanidade” (p. 107).

Essa é uma boa visão para se carregar para a vida, para a ceia do natal e para a mesa de mediação, concordam? Convido-os à leitura do livro a quem tocar.

E, para fechar esse ciclo comemorativo por onde começamos, trago mais um poema de Rumi, acompanhado do meu desejo de que cada vez tomemos mais gosto pela contemplação do que nos acontece em relação. As coisas parecem ser mais rígidas do que realmente são.

Bom fim e início de ano a todos!

 

[Como açúcar na água]

 

Há um sol-estrela que se eleva

além da realidade das formas.

Lá me perdi.

 

(Rumi)[7]

 

 

Notas e Referências:

[1] Rumi foi um poeta e teólogo sufi persa do século XIII.

[2] Artigo disponível em: www.juridicamente.info/nas-profundezas-da-mediacao-i

[3] Artigo disponível em: www.juridicamente.info/profundezas-que-se-mostram-na-superficie-exemplos-praticos

[4] Artigo disponível em: www.juridicamente.info/o-olhar-da-transformacao-de-conflitos

[5] Artigo disponível em: www.juridicamente.info/polarizacao-e-os-desafios-da-mediacao

[6] Namgyel, Elizabeth Mattis. O poder de uma pergunta aberta: o caminho de Buda para a liberdade. Teresópolis-RJ: Lúcida Letra, 2018.

[7] Jalal al-Din Rumi, Mawlana. Poemas místicos. Trad. José Jorge de Carvalho. São Paulo: Attar, 1996-2020.

Colunista

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Amanda Ventura
Amanda Ventura é advogada colaborativa, mediadora de conflitos humanista e psicanalista em formação contínua. Possui larga experiência em Direito Societário e Contratual, e hoje atua na mediação em conflitos de Família (incluindo Divórcio Colaborativo) e Empresas Familiares ou com "affectio societatis" a ser cultivado-restaurado. Além de tudo, é poeta, yogini-professora e contemplativa-entusiasta dos afetos e desejos que tecem as relações humanas. Master of Laws - LLM em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas - FGV. Pós-graduada em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz com ênfase em Equilíbrio Emocional pelo Instituto Paz e Mente em parceria com a Faculdade Vicentina - FAVI, a Cátedra de Paz da UNESCO da Universidade de Innsbruck - Áustria e o Santa Barbara Institute for Consciousness Studies, Califórnia - EUA. Capacitação em Mediação Humanista pelo Centro de Mediação Humanista - MEDIAH; em Mediação Extrajudicial pela Faculdade de Olinda - FOCCA; e em Comunicação Não Violenta pelo coletivo Justiça Restaurativa Pernambuco. Psicanalista em formação contínua pela ALCEP - Associação Livre Centro de Estudos em Psicanálise. Bacharela em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), parcialmente cursado em Sciences Po Lille - França.

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