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MediaçãoNas profundezas da mediação

História de um Casamento

Do amor não se furta

mas de sua história

às vezes

se esquece

(autoral)

 

Charlie amava Nicole, que amava Charlie. Ele, um ator e diretor de teatro com a sua própria Companhia em Nova Iorque. Ela, uma atriz que começa jovem e de forma promissora no cinema em Los Angeles, mas que, apaixonada, abandona a sua carreira na televisão para compor com o Charlie nas cenas teatrais nova-iorquinas. Juntos, eles têm um filho, o pequeno Henry, com uns seis anos de idade.

Como diretor de teatro, Charlie tem seu espetáculo incluído na Broadway e conquista a prestigiosa “genius grant” (“bolsa de gênio”, em tradução livre) da MacArthur Foundation, pela sua excepcional criatividade e habilidade. Ele atribui esse sucesso ao apoio e atuação de Nicole na Cia.

Nicole sempre quis dirigir a próxima peça, mas essa função acabava sempre ficando para Charlie. Nicole também sempre quis voltar a morar em Los Angeles, onde tem sua família que tanto Henry quanto Charlie adoram. Charlie sabia dessa vontade, mas nunca realmente considerou sair de Nova Iorque.

Nicole, em algum momento do casamento, começou a se sentir ofuscada em seus desejos e talentos. “Eu fui diminuindo. E eu notei que não tinha acordado para a vida, só nutrindo a vida dele”, diz. Um belo dia, ela aceita uma proposta em Hollywood para fazer uma série, e decide se restabelecer na Califórnia. Ela queria sentir que tinha um pedaço de vida que era dela, na sua individualidade e potencialidade.

Assim começam os conflitos do casal do filme História de um Casamento (2019), escrito e dirigido por Noah Baumbach,  protagonizado por Scarlett Johansson e Adam Driver, e indicado a seis categorias no Oscar 2020, incluindo Melhor Filme.

Visualizando a iminente separação, e combinando de não usar advogados no processo de divórcio por conta do alto custo envolvido, o casal inicia um processo de mediação de conflitos, que acaba não passando das primeiras sessões. Eles até mergulham na proposta inicial do mediador, que foi a de compartilhar as qualidades que cada um enxergava no outro, para que pudessem lembrar de como um dia se amaram e as razões pelas quais se juntaram. Apesar do mergulho – ou por causa mesmo do mergulho -, foi difícil pra Nicole lidar com as suas emoções, e eles saem da última sessão de mediação e nunca mais voltam.

Passadas algumas semanas, enquanto filmava em LA, Nicole recebe uma indicação de uma advogada, Nora (Laura Dern, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante), e vai visitá-la. Nora é super acolhedora com Nicole, a escuta contar a história de seu casamento, e também lhe impulsiona a tomar as rédeas da sua vida na nova cidade dos sonhos. Nora conquista a cliente e promete conduzir o processo de divórcio da forma mais sutil possível, já que Nicole deseja permanecer amiga de Charlie e não tem interesse em brigar por pensão ou bens materiais. Ela deseja “apenas” obter a guarda do seu filho em LA.

A guarda do filho, contudo, é uma grande questão para Charlie, que deseja permanecer vivendo em NY e estar diariamente presente na vida do filho. Quando Charlie, pressionado após ser intimado judicialmente por Nicole, vai à sua primeira consulta com um advogado, volta decepcionado. Jay é o típico advogado voraz que privilegia o ganho financeiro ao emocional do cliente. Cogita pedir pensão à Nicole, cogita contratar um detetive particular para descobrir as falhas morais de Nicole, cogita pleitear que as custas processuais sejam pagas pela mãe de Nicole… todas sugestões que Charlie rejeita com veemência, pois também deseja permanecer amigo da família. Ao mesmo tempo, Jay parece estar preparado para a briga, se necessária.

Frustrado com a primeira consulta, e impressionado com os altos custos envolvidos em uma disputa judicial, Charlie visita um outro advogado, Bert, que o trata com a maior humanidade. “Saiba que, uma hora, isso vai acabar. E seja perdendo ou ganhando, no fim vocês dois terão que se entender sozinhos”, diz Bert a Charlie. “Obrigada. Você é a primeira pessoa nisso tudo que me trata como ser humano”, ele responde.

Bert e Nora então, junto com seus clientes, iniciam um processo de negociação para tentar chegar a um acordo extrajudicial. Várias reuniões bem proveitosas são feitas e todas as questões não controversas são dirimidas entre o casal. A guarda do filho, contudo, permanece sem acordo e Charlie decide tentar ganhá-la no tribunal com o advogado bom de briga com quem havia se consultado primeiro.

A partir daí, muita história ainda acontece e em nenhum momento dá pra dizer quem esteve certo ou errado. Quem merecia “vencer” ou “perder”, ou até mesmo se a escolha da disputa judicial foi a melhor opção ou não. Esse é um belo filme para ver, de fora, como que em um casamento cada um tem sua visão, sua perspectiva, suas histórias, necessidades e desejos. Também como que os profissionais envolvidos em um processo de divórcio podem guiar e alterar os rumos de uma separação.

Fica a dica para um fim de semana que peça por pipoca e um filme delicado, sensível e profundo sobre um casamento e suas histórias.

Colunista

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Amanda Ventura
Amanda Ventura é advogada colaborativa, mediadora de conflitos humanista e psicanalista em formação contínua. Possui larga experiência em Direito Societário e Contratual, e hoje atua na mediação em conflitos de Família (incluindo Divórcio Colaborativo) e Empresas Familiares ou com "affectio societatis" a ser cultivado-restaurado. Além de tudo, é poeta, yogini-professora e contemplativa-entusiasta dos afetos e desejos que tecem as relações humanas. Master of Laws - LLM em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas - FGV. Pós-graduada em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz com ênfase em Equilíbrio Emocional pelo Instituto Paz e Mente em parceria com a Faculdade Vicentina - FAVI, a Cátedra de Paz da UNESCO da Universidade de Innsbruck - Áustria e o Santa Barbara Institute for Consciousness Studies, Califórnia - EUA. Capacitação em Mediação Humanista pelo Centro de Mediação Humanista - MEDIAH; em Mediação Extrajudicial pela Faculdade de Olinda - FOCCA; e em Comunicação Não Violenta pelo coletivo Justiça Restaurativa Pernambuco. Psicanalista em formação contínua pela ALCEP - Associação Livre Centro de Estudos em Psicanálise. Bacharela em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), parcialmente cursado em Sciences Po Lille - França.

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