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Os abismos – Pilar Quintana

Quantos abismos cabem dentro de nós?

 

Cláudia mora com os pais em Cáli, na Colômbia, em um apartamento tomado por plantas e rodeado por precipícios, sejam eles físicos ou metafóricos. O ambiente, exuberante e bem-cuidado, é um contraste, uma oposição à mãe indiferente que está em conflito com os caminhos escolhidos e impostos para a própria vida. Como muitas famílias, a de Cláudia passa por uma crise, e basta o casamento de seus pais estremecer para que ela comece a entender a fragilidade dos limites que mantêm a previsibilidade do cotidiano.

A partir da expectativa e de seu olhar atento e ao mesmo tempo inocente de criança, é a menina que narra os acontecimentos que abriram as fendas por onde entraram seus piores medos, aqueles que são irreversíveis e podem levar à beira dos abismos. É pelos relatos da mãe, obcecada por revistas de celebridades, que ela faz a correspondência entre a morte e as escolhas e passa a temer pelas decisões de sua genitora.

Embora seja narrado por uma menina de 8 anos, este livro está escrito de uma maneira madura, sem aquela voz infantil que nos permite ter uma enorme empatia por esta menina vítima dos silêncios e do abandono emocional por parte dos seus pais.

Todos convivem com o silêncio abismal de uma vida superficial, de frustrações não resolvidas, dores não encaradas e um turbilhão de situações da vida cotidiana – decisivas ou não – que são empurradas para este mesmo lugar sombrio e aparentemente vazio.

São vários os abismos deste livro (tanto literais como figurados): uma mãe ausente, que esconde uma depressão numa suposta rinite, um pai que trabalha para não faltar nada em casa, quando ainda assim, falta tanto a uma criança; uma filha que percebe que algo está errado e se sente cada vez mais atraída para o abismo. Uma família supostamente perfeita, que vive das aparências. Temas importantes como suicídio, depressão e transtornos alimentares são retratados pela voz de uma menina de 8 anos que se vê obrigada a crescer antes de tempo, moldada pelo peso das atitudes dos adultos.

Este é um livro repleto de silenciamentos, diminuição de sentimentos, desvalorização de dores e complexidades que vão além das páginas: o emaranhado de questões desse livro acaba tornando todos os personagens culpados e, ao mesmo tempo, vítimas de suas próprias histórias. Os conflitos internos e externos são tão reais quanto as marcas que eles proporcionam durante a leitura.

Um livro lindíssimo, com uma carga emocional muito grande que merece ser lido por todos.

 

Ps: Para quem ainda não conhece a autora, outro livro super legal dela se chama “A cachorra” e na minha opinião, é ainda mais forte e sensível do que esse, vale demais a leitura!

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Hannah Riff
Graduada em direito. Advogada licenciada OAB/PE. Assessora de membro do Ministério Público de Pernambuco. Graduanda em Psicologia pela Faculdade Pernambucana de Saúde. Estagiária do IMIP. Leitora por paixão. Parte dessa foz, o rio da leitura, corre em mim desde cedo. Leio porque entendi que as palavras também nascem da coragem de sentir. Esse lugar assustador e mágico de estar vulnerável e por isso, deliciosamente humano. Ler, para mim, é estender uma ponte até o peito. Fazer do papel um espelho. O percurso é entregar-se a cada página, a um sentir, a algo sentido. Espero nessa jornada poder dividir um pedaço desse amor e dessa entrega com vocês também.

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